Bumba-meu-boi encerra programação 2025 de educação patrimonial do Raízes Daqui
Projeto alcança mais de 2 mil estudantes em quatro meses de oficinas sobre cultura nordestina
Com culminância realizada no dia 28 de novembro, o projeto Raízes Daqui encerrou sua programação de 2025 celebrando o Bumba-meu-boi, uma das expressões culturais mais ricas do folclore brasileiro. As oficinas do último mês, conduzidas pelos mestres Josué Américo da Silva Junior e Romeu Paula da Silva, levaram às escolas públicas do entorno da Feira de São Cristóvão a força de uma tradição que atravessa gerações. O evento de encerramento contou com a presença da deputada federal Jandira Feghali.
Whytna Cavalcante, coordenadora geral do projeto, comemora os resultados alcançados desde agosto. “Estou muito satisfeita com o impacto do projeto nas escolas, o resultado da troca dos mestres com os alunos tem sido muito enriquecedor. O projeto é uma política de base comunitária aplicada na prática, sendo executada com eficiência e colhendo resultados mensuráveis. São mais de 2 mil alunos impactados diretamente”, destaca.
Cultura popular como ponte educativa
A experiência nas escolas revelou o potencial transformador da educação patrimonial. Rachel Carvalho, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Floriano Peixoto, acompanhou de perto essa transformação. “Recebemos a proposta com muito entusiasmo! Os alunos se mostraram participativos e interessados na música, nos instrumentos, na dança, no cortejo. Foi uma experiência marcante e de muita ludicidade”, relata.
O envolvimento dos estudantes extrapolou as turmas diretamente participantes das oficinas. “As outras turmas ao virem o movimento na escola perguntaram se eles também teriam aula de cultura! Até no Instagram da escola uma responsável quis saber sobre o projeto”, revela Rachel, demonstrando como a iniciativa despertou curiosidade em toda a comunidade escolar, inclusive dos pais dos alunos.
Para a coordenadora, o legado vai além do aprendizado momentâneo. “A educação patrimonial é importantíssima na escola para que se desenvolva identidade e pertencimento cultural, valorização do patrimônio material e imaterial, sua preservação e o não esquecimento”, afirma, destacando tratar-se de “um letramento cultural que garante, sobretudo, a preservação da memória e a diversidade”.
Metodologia que une prática e conhecimento
Mestre Josué trouxe para as oficinas de novembro uma abordagem que privilegia a interação e a descoberta. “A interação tem que ser a mais didática possível. Logo, vem as curiosidades dos alunos num modo racional e divertido feito pela imaginação deles”, explica o educador, que apresentou aos estudantes diferentes sotaques do Bumba-meu-boi.
A diversidade de influências foi um diferencial das aulas. “Levar a história de Katirina, a dança do boi da maneira mais brincante, falar do Boi de Pernambuco, boi de arrasta… Os toques dos pandeiros do boi do Maranhão”, enumera Mestre Josué sobre o repertório compartilhado com as crianças.
Os resultados apareceram tanto na compreensão teórica quanto na vivência prática. “Já na teoria dá para perceber o lado positivo. Tudo que foi passado oralmente no final todos sabiam responder às questões baseadas nos informativos no áudio visual”, conta o mestre. O encanto foi ainda maior na prática: “a vocação em querer brincar com os instrumentos foi incrível. A maioria nunca teve contato com eles”.
Reconhecimento político e institucional
A deputada federal Jandira Feghali prestigiou a culminância das atividades de novembro e se emocionou com o resultado. “Parabéns. Vi brilho no olhar daquelas crianças”, declarou a parlamentar ao acompanhar as apresentações.
Gilberto Teixeira, diretor do Instituto Cultural Feira e curador do projeto Raízes Daqui, avalia que a iniciativa preenche uma lacuna fundamental. “É uma coisa muito necessária nas escolas da rede pública. As representações da cultura nordestina, através dessas manifestações, Maracatu, Coco de Roda, Frevo e Bumba-meu-boi, preenchem essa lacuna, esse vácuo existente no ensino público brasileiro”, analisa o curador, ressaltando o papel do Rio de Janeiro como “tambor de ressonância” dessas manifestações culturais.
Tradição nordestina em solo carioca
Para Mestre Josué, levar o Bumba-meu-boi ao Rio de Janeiro representa uma missão cultural urgente. “É fundamental! Trazer o folclore para outras regiões é mostrar um valoroso Brasil. Ter nossa cultura viva e educativa nas bases fundamentais”, defende. A preservação dessas tradições é uma responsabilidade coletiva: “Não podemos perder nosso ‘forrobodó’, e sim resgatar mais disciplina cultural nordestina”.
O projeto ganha dimensão ainda mais especial ao coincidir com as celebrações dos 80 anos da Feira de São Cristóvão neste ano de 2025. “É um evento muito significativo e coincidiu da gente estar efetivando o projeto Raízes Daqui com essas quatro representações tão significativas da cultura nordestina”, celebra Gilberto Teixeira. Para o curador, a iniciativa cumpre o papel de mostrar “um Brasil que o Brasil não conhece”, expressão eternizada pelo saudoso Naná Vasconcelos.
Quatro meses, quatro manifestações culturais
O Raízes Daqui construiu ao longo de sua programação 2025 um percurso completo pelas principais manifestações da cultura nordestina. Iniciando em agosto com Maracatu, passando por Coco de Roda em setembro, Frevo em outubro e encerrando este ciclo com Bumba-meu-boi em novembro, o projeto ofereceu aos estudantes uma imersão abrangente nas tradições populares brasileiras.
Realização do Instituto Cultural da Feira e Ministério da Cultura/Governo Federal, com apoio da Prefeitura do Rio, a iniciativa representa um modelo inovador de turismo patrimonial baseado na experiência viva da cultura popular. Funcionando de terça a quinta-feira nas escolas públicas da região, o projeto alcançou aproximadamente 2 mil estudantes nesta edição de quatro meses.
Foto: Mestre Josué em apresentação para as crianças / Crédito: Howard Cappelletti – Divulgação Raízes Daqui
